Os ciclistas pedem atenção

Chegar cedo no trabalho, não se preocupar com estacionamento, gastar pouco, não prejudicar o meio ambiente e poupar sua saúde. Esses são alguns dos benefícios que se tem ao andar de bicicleta. Entretanto, quando nos referimos à bicicleta no trânsito do Recife, a história muda. Os riscos de sofrer um acidente a qualquer momento faz parte do cotidiano do ciclista na capital de Pernambuco, por causa disso, muitos preferem deixar suas bicicletas em casa por precaução, mas existem ciclistas que preferem correr esse risco na luta por uma cidade mais solidária ou aqueles que pedalam porque só tem essa opção.

No início deste ano, foi divulgado um ranking de piores trânsitos do mundo, resultado de uma avaliação feita em 2014, no qual Recife estava na 6ª posição. Só que em fevereiro de 2014, o governo estadual em parceria com 14 prefeituras já havia lançado o Plano Diretor Cicloviário (PDC),  com o objetivo de “construir”, entre outras coisas, 590km de rede cicloviária em 10 anos.  Só para a cidade do Recife estava previsto 90 km, mas se alguns quilômetros de ciclovias e ciclofaixas prometidas no PDC fossem feitos desde o lançamento do Plano, o trânsito do Recife não estaria entre os 10 piores do mundo e nem os ciclistas estariam correndo tantos riscos nas ruas, mas nada disso foi feito até hoje. 

Para a vereadora do Recife Marília Arraes (PSB/PE), a prefeitura do Recife ainda não cumpriu com o seu dever porque  “o transporte por meio de bicicleta não é prioridade para esta administração. Na verdade, esta gestão acredita que a bicicleta é apenas lazer, quando reforça as ciclofaixas de domingo e as coloca como grande obra”.

Em relação a Audiência Pública – feita a pedido da Ameciclo com intermédio de Marília Arraes – realizada na Câmara Municipal do Recife com  o objetivo de cobrar a execução do Plano Diretor Cicloviário (PDC), a vereadora comentou que a prefeitura do Recife enviou um servidor de terceiro escalão para uma audiência pública e que isso significou duas coisas para eles: “Uma, a PCR corrobora que não leva a sério o transporte público; duas, ao faltar a uma audiencia pública, o secretário de Mobilidade, João Braga, reconhece que não tem um projeto relevante para a área que dá nome à pasta que conduz”, afirma.

Consequentemente, quem sofre com a falta de compromisso e responsabilidade do governo de Pernambuco e da prefeitura do Recife é a população. E mais ainda, a população que utiliza a bicicleta como meio de transporte porque alguns motoristas não querem enfrentar o trânsito intenso – provocado pela quantidade de carros que a cidade não comporta –  e, se for preciso, muitos deles trafegam pela contramão, usam faixas exclusivas de ônibus e sobem até em calçadas atropelando ou dando fino nos ciclistas como se as bicicletas fossem o verdadeiro motivo do trânsito estar daquele jeito. Outros motoristas não praticam essas irregularidades, porém ao trafegarem em alta velocidade nas avenidas principais da capital põem os ciclistas em riscos da mesma forma, como conta Daniel Valença nessa entrevista.

Uma pesquisa feita pela ONG Transporte Ativo, realizada em 10 cidades brasileiras revelou que 73,6% das pessoas entrevistadas pedalam mais de cinco dias na semana, isso significa que as pessoas estão usando a bicicleta como meio de transporte, ao contrário do que muitos pensam.

Hoje, Recife possui um pouco mais de 36 km entre ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas. E além de ser pouco, o grande problema disso tudo é que diferentemente das ciclofaixas de turismo e lazer , as ciclovias e ciclofaixas que foram construídas na capital não possuem interconexão entre elas, ou seja, o ciclista pedala por um trecho dentro da ciclovia, mas até chegar ao seu destino, disputa espaço com os outros meios de transporte.

O arquiteto Maxweel Albuquerque,  34 anos, é um desses ciclistas. Para chegar até seu trabalho no bairro da Jaqueira, ele segue pela ciclofaixa da Estrada do Encanamento, mas a ciclofaixa termina antes. Apesar do trecho ser pequeno, ele confessa que sente medo pois os motoristas não respeitam a distância de 1 metro e meio.

Já na região que o aposentado José Miguel Torres, 63 anos, mora não possui nenhum tipo de separação entre ciclistas e motoristas. Ele se arrisca todos os dias quando sai de casa.

Ciclovias x Ciclofaixas x Ciclorrotas

As ciclovias (imagem da esquerda) são espaços exclusivos para ciclistas e geralmente são utilizadas barras ou blocos de concreto para realizar a separação das vias para carros.

Já no caso das ciclofaixas (imagem da direita) não há separação física, elas são diferenciadas por faixas pintadas no chão.

 

Práticas educativas

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Na tentativa de diminuir os acidentes envolvendo os ciclistas, desde abril até o 1º dia de julho, bicicletas estáticas foram instaladas no pátio da sede do Detran-PE, na Zona Oeste do Recife. Entretanto, esse período foi considerado apenas educativo.

Hoje há um boneco e uma faixa determinando a distância de 1 metro e meio. Os examinadores recebem informações, através de um tablet, caso alguém não respeite o limite, por estar ao lado do ciclista ou fazendo ultrapassagens.

Saiba mais: Mais de 200 reprovados na prova prática do Detran após instalação da bicicleta

 

Conquistar seu próprio espaço

Devido a tantos problemas de planejamento nas vias, fomos a cidade do Recife para pedalar procurando conhecer mais de perto quais são os principais problemas enfrentados pelos ciclistas, mesmo sendo na ciclofaixas, como mostramos na nossa Videorreportagem. Houve momentos que precisamos usar trechos que não tinham proteção ou sinalização e assim fica difícil para todos, seja, ciclista da ciclofaixa ou ciclista que usa a banguela no dia-a-dia como transporte alternativo. Se formos comparar o desempenho das ciclovias em Pernambuco com o desenvolvimento das mesmas vias no Estado de São Paulo, vamos perceber que estamos um pouco atrasados.

Na terra paulista existem hoje 60 quilômetros de ciclovias, mas Fernando Haddad atual prefeito de São Paulo, tem planos para implantar 400 km de ciclovias até o final deste ano.  Já aqui no Recife segundo a Secretaria de Planejamento Urbano, existem 12 rotas de cliclovias em consonância com o Plano Diretor Cicloviário (PDC), que vem sendo cobrado pela Vereadora da Prefeitura do Recife Marília Arraes.

De acordo com a Secretaria,  juntando as rotas localizadas nos bairros de Afogados, Imbiribeira,  Rosarinho, Encruzilhada, Hipódromo e Campo Grande, temos 5 km de ciclovias. Até o começo de 2016 está previsto a implantação de 22 km que vão passar pelo bairros do Arruda próximo ao canal, pista leste da via mangue, Av Inácio Monteiro, Engenho do meio, Jardim São Paulo e Boa Viagem. Mas esses locais não são prioritários e existem pontos como a Av Agamenon Magalhães, Abdias de Carvalho e Mascarenhas de Moraes que necessitam mais dessas futuras implantações.

Dessa forma podemos perceber o quanto os ciclistas recifenses sofrem por não ter vias cicloviárias para o uso no dia-a-dia. Tentando obter mais informações sobre a situação dessas rotas, entramos em contato com a secretaria de Turismo e Lazer do Recife para saber como está o andamento do (PDC), já que agora a responsabilidade pelo projeto pertence a esta secretaria, mas ainda não tivemos resposta.

Atualização: resposta da secretaria de Turismo e Lazer da Prefeitura do Recife 04/12/15

Em resposta as perguntas sobre o processo de andamento do Plano Diretor Cicloviário (PDC), a secretaria de Turismo e Lazer esclarece que “os projetos priorizam o atendimento aos bairros que abrigam polos de interesse público, como parques, praças, mercados públicos e terminais de ônibus, criando pontos de conectividade entre esses equipamentos”. Sobre os futuros projetos, permanecem as informações fornecidas acima pela secretaria de Planejamento Urbano. Ainda em resposta, a secretaria de Turismo e Lazer afirma que atualmente no Recife existem 33 quilômetros de malha ciclável.

Leia mais: Ciclovias também enfrentaram resistência na Alemanha

 

 

 

 

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