Entrevista – Daniel Valença

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Daniel Valença, coordenador-geral da Ameciclo

Com a missão de “Transformar as cidades, por meio da bicicleta, em ambientes mais justos, humanos e sustentáveis”,  a Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo) – criada desde 2013 – compõe hoje uma das principais vozes responsáveis pela luta por um espaço digno para a bicicleta no trânsito do Recife.  Desde o início, os voluntários e associados da Ameciclo têm realizado campanhas para conscientizar a população sobre a necessidade de haver respeito e educação por parte dos motoristas, projetos (que são encaminhados para órgãos responsáveis pela mobilidade) que incluam bicicletas nas vias para que os ciclistas não precisem se arriscar entre os carros e ações em comunidades carentes, como manutenções de bicicletas. Para saber mais dos desafios enfrentados pelos ciclistas no cotidiano do Recife, qual tem sido a resposta do governo em relação à infraestrutura, entre outras questões, entrevistamos Daniel Valença, que é o coordenador-geral da Associação. Confira abaixo a entrevista:

Daniele Alves – Desde 2013, a Ameciclo possui o projeto “Contagem de Ciclistas”, no qual vocês ficam 14 horas, durante um dia, em um determinado local contabilizando o número de ciclistas que passam por ali. Dentre os trechos que já fizeram parte do projeto, qual local teve um maior fluxo de ciclistas?

Daniel Valença – O local que a gente contou mais foi a Avenida Beberibe com a Rua professor José dos Anjos onde 3.500 ciclistas passaram. Isso foi muito próximo do outro (local) que a gente contou no mesmo dia, na Rua Gomes Taborda com a Avenida do Forte, também chamada de Rua da Lama, que foram em torno de 3.400. Porém, o local que mais surpreendeu foi a Avenida Caxangá porque é uma avenida altamente inóspita para o ciclista, a velocidade lá é de 60 km/h e é um local bem violento, mesmo assim passaram mais de 3.000 pessoas na contagem que a gente fez lá. Então mostra que as pessoas realmente precisam de infraestrutura para andar de bicicleta, afinal elas já estão transitando de bicicleta.

Daniele  – As ciclofaixas de turismo e lazer colocadas aos domingos e feriados são “protegidas” por cones, orientadores de trânsito e guardas municipais, mas no dia-a-dia sabemos que não acontece isso. Quais são as principais dificuldades encontradas pelos ciclistas durante a semana no Recife?

Daniel  – A primeira é a falta de infraestrutura.  A gente tem uma dificuldade de enxergar a legitimidade do ciclista no trânsito porque as ruas foram construídas para os automóveis, as propagandas dizem que as ruas são dos carros e o governo diz que a rua é dos carros, por ações que eles fazem e pelo dinheiro investido.  A verdadeira legitimidade do ciclista é usar a via como seu principal meio de transporte. A falta de respeito é uma segunda dificuldade que também provém dessa falta de legitimidade e da desigualdade social, onde o ciclista é visto como cidadão de segunda classe. A pessoa que está no automóvel acha que comprou um poder maior, que pode passar por cima dos demais.

“As avenidas de maior velocidade têm que ter segregação total ou diminuir a velocidade máxima, mas ninguém está disposto a isso.”

Daniele –  O cotidiano do ciclista é cercado de insegurança em quase todas as vias da capital, pela ausência de proteção para os ciclistas. Mas quais são os locais específicos que provocam mais riscos para quem anda de bicicleta no Recife?

Daniel – Geralmente avenidas de alta velocidade e com grande densidade de movimentos de veículos, como a Agamenon Magalhães e a Avenida Caxangá.  Avenidas que teve a priorização do modal coletivo, mas se esqueceu do ciclista – como a Mascarenhas de Morais – porque o ciclista que vem transitando geralmente a direita tem aquela via tomada por um veículo muito grande. Viadutos são trechos além de perigosos, bem desgastantes para os ciclistas porque há uma aceleração de fluxo de veículos, têm velocidade e, geralmente os viadutos daqui do Recife não têm calçadas, onde é mais seguro para os ciclistas transitarem.

“Mas o pior de tudo nem é a precariedade, é a falta de conexão da estrutura.”

Daniele – Diante de tantos problemas que os ciclistas esbarram no seu cotidiano. Quais ruas e avenidas vocês acham que deveriam ser prioridades na criação de ciclovias?

Daniel – Avenidas e vias arteriais onde o trânsito chega a 60km/h. Nessas vias não é só nem prioridades, é necessário mesmo que se coloque ciclovias para realmente ter proteção, independente do número de ciclistas que passam, por causa do trânsito rápido. Quando a gente baixa a velocidade para 40 km/h, não há tanta necessidade de segregar tão fisicamente como uma ciclovia, então a gente pleiteia nesses locais ciclofaixas. E nas demais vias, de 30 km/h, a gente só pleiteia adaptação da via para que seja fisicamente impossível do motorista ultrapassar a velocidade máxima. As avenidas de maior velocidade têm que ter segregação total ou diminuir a velocidade máxima, mas ninguém está disposto a isso.

“Não faz sentido você colocar uma ciclovia numa via que as pessoas já passam de bicicleta porque não tem violência no trânsito.”

Daniele – O que você acha da estrutura das ciclovias e ciclofaixas que já existem na cidade?

Daniel – Se você for tirar pelas ciclovias, a gente tem duas. A da Avenida Boa Viagem é decente, apesar de estreita, mas é uma pena que ela tenha que ficar fazendo tanto zigue-zague para poder permitir estacionamento de carro. A da Avenida Norte não segue o tempo todo na avenida, o ciclista tem que dar uma volta por trás do Cemitério (dos Ingleses) para continuar. As ciclofaixas (“não conheço essa nova ainda”) da Estrada do Arraial e do Encanamento como são unidirecionais, os ciclistas naturalmente vão usar na mão dupla, então ficaram super estreitas. A da Avenida do Forte é completamente apagada. Mas o pior de tudo nem é a precariedade, é a falta de conexão da estrutura. Poderia, por exemplo, na Zona Oeste ter uma ciclovia interconectada até o Centro,  você iria ver que naquela região da cidade iria ter um fluxo gigantesco de ciclistas maior que todo o resto da cidade, pelo estímulo da infraestrutura.

Daniele – O Plano Diretor Cicloviário (PDC) criado pelo governo de Pernambuco, em fevereiro de 2014, prevê para o Recife 90 quilômetros cicláveis até o final deste ano. Algum quilômetro do projeto já foi cumprido?

Daniel – Nada foi cumprido do projeto, inclusive estão inventando desculpas para implantar em outros locais. Tem um trecho do PDC que diz assim “Se não couber nesses locais, mediante estudo de viabilidade, pode mudar até 500 m do local”, só que não faz sentido você colocar uma ciclovia numa via que as pessoas já passam de bicicleta porque não tem violência no trânsito. Mas o principal problema é do Estado porque ele vence os seus prazos em 2015. Já a prefeitura do Recife prefere gastar 77 milhões em asfalto a gastar em ciclofaixas. Falta sair do discurso e pôr na prática.

Daniele – Há pouco tempo o PDC foi transferido da Secretaria das Cidades para a Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer. Qual a opinião de vocês em relação a isso?

Daniel – Isso jogou fora todos os ganhos que os ciclistas tinham feito.  Quando tinha o Escritório da Bicicleta, por mais que ele fosse fraco dentro da Secretaria das Cidades, era uma infraestrutura criada para se discutir a bicicleta enquanto modal de transporte na secretaria que discute modal de transporte. Quando ele sai em uma Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer que são três temas transversais, a bicicleta perde essa força, ela vai ser realmente taxada como turismo, esporte e lazer, quando na verdade isso também é parte da bicicleta, mas não é o foco que a gente quer das bicicletas nas cidades (Confira abaixo o texto que a Ameciclo “encaminhou” a Setur).

 Carta aberta à Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer

Daniele – Como seria o Recife ideal para os ciclistas?

Daniel – A cidade ideal para o ciclista é aquela que ele tenha segurança para se deslocar, ou seja, sair de casa sabendo que você vai chegar.  Arborizada, pois nós não temos uma cidade quente, ela é desarborizada e asfaltada, que causa calor. Um local para quando ele chegar, estacionar. Enfim, uma cidade mais humana, pois a gente acredita que a bicicleta tem esse poder de transformar a cidade. As pessoas vão andar mais devagar, porém mais fluidas. Vão passar a observar umas às outras, entender as fragilidades delas e diminuir o índice de violência geral.

Saiba mais:  

Falhas no planejamento de infraestrutura cicloviária põe em risco os cidadãos

Ciclovias na Região Metropolitana não estão nas vias principais

Abaixo você confere alguns dos projetos da Ameciclo:

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